segunda-feira, 18 de junho de 2007

Auden: poema Musée des Beaux Arts

O título deste poema de W. H. Auden foi retirado dos Musées Royaux des Beaux-Arts da Bélgica, onde está depositado uma pintura de Brueghel, “Paisagem com a Queda de Ícaro”. Esta obra do mestre flamengo representa uma paisagem, onde se pode observar vários tipos de pacíficos trabalhos agrícolas e a navegação tranquila de barcos, enquanto um pormenor no canto inferior direito nos remete para a lenda de Ícaro, no momento em que, depois de se tentar aproximar do Sol, cai ao mar.
Onde muitos autores viram a representação de um exemplo de falta de prudência, Auden remete-nos para uma outra interpretação, não académica, do tema em causa.







Sobre o sofrimento tiveram sempre razão
Os Velhos Mestres; perceberam lindamente
A sua humana posição; como habitualmente ocorre
Enquanto outros comem ou abrem uma janela ou simplesmente passeiam;
Como, enquanto os idosos aguardam reverente e ardentemente
Pelo milagroso nascimento, tem de haver
Crianças que não queriam especialmente que acontecesse, patinando
Num lago na orla da floresta;
Nunca esqueceram
Que até o atroz martírio deve decorrer
Algures a um canto, um local grosseiro
Onde os cães continuam a sua vida de cão e o cavalo do algoz
Esfrega atrás de uma árvore o inocente traseiro.
No Ícaro de Breughel, por exemplo: como tudo se desvia
Calmamente do desastre; o lavrador por certo teria
Ouvido o splash, o grito desvalido,
Mas para ele não era um fracasso importante; o Sol brilhava
Como devia nas pernas brancas que no mar esverdeado
Se sumiram; e o barco sumptuoso e delgado que terá vislumbrado
Algo de extraordinário, um rapaz do céu caído,
Tinha algures para onde ir e calmamente vogava.

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